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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Tabacaria. Por Fernando Pessoa

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma poesia como martelo...

Uma centelha...

Thiago Oliveira





Há poucas horas, ele havia visto a centelha. Imaginando que nada mais fosse que uma fagulha solitária,

 resfolegou e meneou-se em direção do costume. Nada que um belo gole de candura pudesse confirmar. 

Mas a candura ausentou-se, e o menear queixou-se. E da queixa veio a querela. Não como as outras e 

passadas, mas como a de sempre, como a nova, como a que irrompe e rompe o compasso, não como as 

outras, mas como agora. Como é chistoso o tempo, como é singular a ampulheta. Seu consumir não respeita 

um horário. O tempo não deve satisfação a ninguém, nem mesmo ao espaço. E dessa forma, o marchante 

contado atropelou o rogado, que ao se ver em si, já vislumbrava a centelha, em contornos de chamas 

fulgurais. Como é fatídica a sina daquele que se consome! Nada lhe resta a não ser sentir o dessabor de si 

mesmo, nada lhe a resta a não ser aceitar as horas. E com o tempo, a centelha se espalha. De fagulha à 

chama, basta quem clama! E assim a sina se fez. Com o fogo consumindo cada centímetro de sua alma, 

olhou para dentro, e não viu aquela antiga companheira calma, a razão. Perdeu-a, e com ela foi-se a última 

gota capaz de aplacar a chama, que de centelha, só tinha um traço... 





sexta-feira, 3 de maio de 2013

Uma poesia como nada...


VERGONHA

Thiago Oliveira




A vergonha do reflexo estampado na face me compele a fugir.
Finjo não saber do que fujo, mas o semblante não me esquece.
Mais uma vez me vejo preso ao muro do silêncio que outrora rompi.
A boca está seca, o ar sombrio, os dedos falham, as idéias somem.
A negação se torna a resposta imediata. Finjo não negar, somente finjo.
E o que me espera a não ser vergonha de me reconhecer mais uma vez.
As ações já se calaram, as palavras não são mais minhas amigas.
A quem engano?
Nem mesmo o papel que se coloca a minha frente, liso, mudo, pronto para receber cada golpe trêmulo de meus dedos.
A repetição de um vocabulário já cansado desse mísero salário.
A condenação a uma redenção involuntária imposta pela ausência de altivez.
Eis o que espera aquele que se encosta à parede.
Finjo não ver o pelotão que se dirige ávido de sangue, só pra não fingir que tenho medo.
Antes fosse de mãos dadas com o medo, mas agora me resta a vergonha do silêncio que me impus.
A quem escrevo?
Aos milhões de leitores imaginários que fui incapaz de libertar dessa prisão silenciosa?
Aos dignos da miséria de uma vida cheia de ilusões?
A quem escrevo, senão a mim?
Mais um rubro tijolo postado sob a vigota mais fraca dessa parede.
Mais um idiota vergonhoso que acredita ludibriar a verdade através das palavras.
Mas a face não me engana. Ela não engana.
E a vergonha está estampada.
Veja quem puder, ela corrompe e corrói. Torna encantadora a fraqueza antes rejeitada.
Nada mais resta a não ser aceitar por força partilhá-la, já que não se pode negá-la:
a vergonha.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Uma poesia...


Delírios

Thiago Oliveira



Cada gota compunha a marcha derradeira de uma alma delirante
Deleitando-se em amargura, o tempo consumia sua essência
E não restava nada mais do que admirar o definhamento
As súplicas tornavam-se vazias, o apelo ecoava entre as paredes
Enquanto isso, não distante dali, a chuva resolvia-se límpida e contínua
Exaltando a beleza de um mundo que assim não mais lhe parecia.
Não foram as migalhas de momentos fúnebres que abocanharam o velho sabor
Mas sim sua impertinente insistência em alimentá-las
Não cabia mais ao senhor das horas resolve-las, pois cada gota trazia consigo a
marca das outras, esganiçando cada lapso registrado
Sua mão era incapaz de alcançar a ampulheta e o consolo se transformara em
esperança.
Não há nada mais assustador que o reconhecimento!
Sua melodia pode surpreender aos mais convictos
E em cada nota a alma se revela distante do que outrora acolhera
Não há silêncio mais aterrador do que o produzido por ele.
E o que dizer diante de um espelho?
Há o que se admirar?
Há o que se olhar?
Há?
As gotas cessam, a marcha já não assusta tanto
Por fim, sua alma delira
O que restará após tal enfrentamento?
Como lidar com o que foi expungido?
Não há calma serena para os que deliram
Somente o tormento e a tristeza de seu reconhecimento
Somente o monstro de “si” a destroçar a ampulheta
Somente sua alma
E se as gotas voltarem? E se a marcha retomar seu fluxo?
Agora sabendo de “si”, será capaz de querer reconhecer?
Só o silêncio dirá.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Uma poesia pra esquecer...


Confortavelmente anestesiado

Thiago Oliveira



Assim como o dedo de Crátilo repousa sobre o indizível,
Os olhos de seu julgamento descansavam sobre o a absurdo.
Não um descanso como o dos mortos
Nem o revigorante dos acostumados
Mas marejados, e comprimindo contra sua fronte a distância que ele fora incapaz de
evitar, descansavam o sono dos tolos, do qual um dia julgaram se levantar.
E assim, pôs-se a declinar sobre o que não foi, trazendo consigo a marca indelével de
sua nulidade histórica.
A cada curva projetada pela grafite já gasta, a marca se tornava mais fulgente.
E os olhos?! Ah! Esses sossegavam sobre o absurdo, como se fossem íntimos, como se
a sina diária não lhe fosse mais o estupor de outrora, com quem agora faz cama e se
deita.
Não! Seus olhos não enxergam mais além do que lhe resta de decoro, e quase nada lhe
parece mais alheio.
Confortavelmente entorpecidos, seus olhos repousam sobre o que lhe passa como quem
rechaça qualquer motim.
Será o fenecimento de uma utopia fadada ao goro?
Serão os dias retalhos de uma consciência estuporada?
Será o costume o galardão dedicado aos submissos?
Nada disso importará, pois sua sina será de festim.
Aquela dos ignaros, dos participantes do horário, que em nada se atrapalham com o
revés de outrem.
Seu costume será o de muitos, e só de passagem, com o advento dos loucos, sua sina
será meneada.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Uma poesia como outra...


Zé bonitinho

Thiago Oliveira

Olha quem vem lá, com seu passo marcado e o cabelo arrumado!?
É o Zé bonitinho.
Todo certinho, terninho limpinho e sorriso nos dentes!
É o Zé bonitinho.
Que grande pessoa e exemplo maior
Não nos resta mais dúvidas, ele é o melhor!
Guia dos “cegos”, amante dos “fracos”
Quisera eu ser um “Zé bonitinho”
E deixar meu registro no mesmo caminho!
Com a ideia copiada e de outrora anotada
Segue sempre o ditado que como exemplo lhe foi passado.
Com ar “positivo” e ombro “amigo”
Todo ‘Zé bonitinho’ pertence a um grupinho!
E quem não quereria a eterna alegria de se ver imitado?
Quem é este “homem” distinto e louvável?
É o Zé bonitinho!
Que “bela aparência”, que grande eloqüência, tem o respeito de “todos”
É o Zé bonitinho!
__ Amigos contemplem! Quão grande emoção
__É o Zé bonitinho quem aperta minha mão!
Espelho de ações, receituário da virtude
É o Zé bonitinho!
Quisera eu, no mesmo passo marcado, ter meu nome aclamado!
Quem não quereria ser um Zé bonitinho?

segunda-feira, 4 de março de 2013

Uma poesia como ar...


Delírios

Thiago Oliveira

Cada gota compunha a marcha derradeira de uma alma delirante
Deleitando-se em amargura, o tempo consumia sua essência
E não restava nada mais do que admirar o definhamento
As súplicas tornavam-se vazias, o apelo ecoava entre as paredes
Enquanto isso, não distante dali, a chuva resolvia-se límpida e contínua
Exaltando a beleza de um mundo que assim não mais lhe parecia.
Não foram as migalhas de momentos fúnebres que abocanharam o velho sabor
Mas sim sua impertinente insistência em alimentá-las
Não cabia mais ao senhor das horas resolve-las, pois cada gota trazia consigo a
marca das outras, esganiçando cada lapso registrado
Sua mão era incapaz de alcançar a ampulheta e o consolo se transformara em
esperança.
Não há nada mais assustador que o reconhecimento!
Sua melodia pode surpreender aos mais convictos
E em cada nota a alma se revela distante do que outrora acolhera
Não há silêncio mais aterrador do que o produzido por ele.
E o que dizer diante de um espelho?
Há o que se admirar?
Há o que se olhar?
Há?
As gotas cessam, a marcha já não assusta tanto
Por fim, sua alma delira
O que restará após tal enfrentamento?
Como lidar com o que foi expungido?
Não há calma serena para os que deliram
Somente o tormento e a tristeza de seu reconhecimento
Somente o monstro de “si” a destroçar a ampulheta
Somente sua alma
E se as gotas voltarem? E se a marcha retomar seu fluxo?
Agora sabendo de “si”, será capaz de querer reconhecer?
Só o silêncio dirá.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma poesia como água...


Quando “ele” nasce

Thiago Oliveira


Atônito, estrugido, estéril, morbidamente consciente da carência manifesta.
Mesmo assim, permaneço-me imóvel diante da figura retrátil que oscila abaixo
de minhas pupilas.
Sarcasticamente preso até o último suspiro.
Irritantemente insistente. Apavorante.
Observo a ampulheta; nada se move.
Nem a mínima sombra deixa seu estado etéreo.
Penso nos vários segundos, minutos, sensações, movimentos, rejeições e seu
espaço perdido.
Nem uma gota sequer de suor é capaz de romper o gélido momento.
Quão deprimente é a seca pertinente!
Quão necessário é o momento da ausência!
Perfiladas, uma atrás da outra, as ideias se dirigem para fora.
A tranquilidade nunca incomodou tanto.
Um momento de descaso e a imobilidade se destrói.
Como demover o silêncio de seu estado mais precioso?
Como tornar calmo o que é sereno por essência?
Como destronar o assombro de sua pérfida cátedra?
Assim como o momento, as respostas se demoram.
Triste representação medíocre do mais puro estado da natureza humana.
Ao fundo, gargalhadas.
Irrompe-se em ódio a revolta dos petulantes.
“_Quem é você?!”, ele pergunta.
E como se do nada, a seta enruga o peito desnudo.
A calma já não mais se mistura.
Não há mais aquela ausência de movimento.
A inércia foi rompida, a fuga foi roubada, não há mais como se esconder.
Os passos pesam em direção à porta.
As gargalhadas se tornam a referência.
A força parece tomar conta do que antes havia sucumbido.
É o som do nascimento.
Não há mais lugar para fugir.
Ele chegou! O medo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Uma poesia como pão...


A causa e a pena
 Thiago Oliveira
A pena está pesada, o tempo está pesado
A resposta tarda.
Eu do lado de cá com cem grãos de consciência e o vazio me incomoda.
Não é o humor, não é o temperamento, apenas não é.
                                                                    E o tempo pesa.
Consome cada grão num anuncio desesperado.
E a resposta tarda.
Intruso, o devaneio se põe a silenciar o peso que se mascara.
Mas o tempo não permite, e a resposta é falha.
Sob que comando a pena volta a deslizar?
Uma afronta a este peso seria o declínio?
Seria, pelo menos?
Os grãos se espalham e marcam os passos pesados em minha direção.
Surdez e cegueira já não são má opção.
Por que voltou a deslizar?
Agora não é só o vazio que incomoda, como se seu oposto pudesse gerar o mesmo desconforto.
“_ Se apegue aos clichês!”, grita o grão da esquerda.
Mas a pena pesa, e a resposta tarda.
E na esperança do vazio, que já não incomoda mais, tento ocultar o declínio.
E me apego com força de que não só eu e os grãos saberemos.
Mas o tempo pesa, e a certeza é falha.
Não é medo da causa, mas de admiti-la.
Como se evitar as consequências apontasse a contramão do declínio.
Agora será assim.
Ao acordar a pena, cada passo pesado será marcado com um grão.
Mas o devaneio insiste em interromper.
Como se eu não soubesse de sua armadilha preparada a cada curva marcada.
Seu acordo com o tempo permitia a ilusão.
Sob a pena ainda julgo registrar passos escuros.
Não é o acordo do devaneio, mas meu com o tempo, se ele aceitar.
Pelo menos pareço não fingir.
“_ Deixe aos intérpretes, eles dirão!”, retruca o grão da direita.
Mas a pena pesa e a certeza é falha.
E não é que o sarcasmo se tornou a fuga.
O tempo todo, mesmo sob o peso que marcara os grãos, foi a resposta que antes tardara.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Uma poesia como café...


Tristeza
Thiago Oliveira

“Que nunca seja afastada de mim a tristeza
Não sei se conseguiria viver sem ela.
De todas as companheiras, a mais fiel.”
Qualquer traço mais medíocre interpretaria essa senhora com tais versos.
Mas não vejo saída.
Como se por algum momento optasse por obtê-la, a saída!
Somente os senhores de si conseguem tal façanha.
Eu prefiro a pergunta: o que você quer de mim?
A resposta nem sempre agrada, mas sempre vem com uma parcela maior de mim mesmo.
Portanto, não me tirem a tristeza.
Não essa de agora, que me afoga e me pressiona contra a consciência.
Me refiro a toda tristeza possível.
Podes me apontar amizade mais fiel?
Existe algo de feliz na tristeza.
Não sei se é sua obscura promessa de redenção
Não sei se é sua presença límpida e sincera
Não sei se é a distância implicada por sua ausência
Ou mesmo a simples presença de seu oposto.
Apenas sinto algo de mim na tristeza
Talvez essas sejam as linhas mais baratas traçadas por mim em um papel.
Mas talvez seja pela exigência simples que a tristeza me impõe.
As linhas são tristes, tal qual seu objeto
A cadência é triste, tal qual seu senhor.
Jamais me furtarei o prazer de senti-la
Quem negará que há algo de libertador na mais simples e pura tristeza?
Aliás! Quem negará a presença da tristeza?
Não me chamem de pessimista! Sou só eu mesmo voltando mais uma vez pra minha vida.
E eis que ela aparece mais uma vez
Escarrando em minha face a verdade.
Desnudando a hipocrisia que em momentos prevalece.
Revelando o egoísmo de cada traço.
Destronando esse bufão de sua arrogância.
Desejaria eu um “deus” mais particular que esse?
A cada expressão a alma rejuvenesce.
A tristeza me liberta!
E quando eu perguntar por ela mais uma vez, lembrarei-me de sua última visita!
Explica-se a simplicidade do verso quando a purificação se faz presente.
A tristeza não permite capricho.
Não é a parede branca à minha frente que exige porções harmônicas de uma cor vivificante
Mas sim a parede que se interpõe entre o olhar estéril e aquela.
Não é o silêncio do quarto em volta que grita por uma nova melodia
Mas sim o quarto vazio cuja porta se abre à força dessa fiel amiga tristeza.
Sua promessa já não é mais obscura
Sua presença já não é tão próxima
Sua ausência já não é mais negada
O que há de tão ruim na tristeza para ela obter tanto desprezo?
Fuja da tristeza como a lebre do lobo e ela te atingirá como um raio.
Deite-se com a tristeza como com uma amante e ela te levará à loucura
Abrace a tristeza como a um amigo e ela lhe será solidária
Sua fidelidade é o compromisso com sua passagem
E seu caminho é a porta de entrada para um dia de libertação
Em cada passagem há um filho gerado
E o alimento que lhe é dado deve ser sempre o adequado
Caso contrário, sua força sugará sua visão, e o caminho da saída não será mais agradável.
Lembre-se, não é culpa da tristeza!
Que jamais seja retirado de mim o direito de estar triste!