segunda-feira, 25 de março de 2013

Não há nada de novo no reino dos porcos (2)


A nova cultura de informação

Thiago Silva Freitas Oliveira


Já fazia algum tempo que não escrevia nada aqui. De fato, estive bastante ocupado com a vida acadêmica nos últimos dias, e não pude encontrar tempo para essa descarga social que ouso chamar de blog informativo e provocativo. Descarga social porque, por um lado, devo admitir, a internet possibilitou que milhões (talvez bilhões) de pessoas no mundo, inclusive aqui no Brasil, se tornassem intelectuais de “praça de alimentação” diariamente. Quem não tem um meio eletrônico de divulgar suas ideias hoje em dia? Seja por blogs, redes sociais, MSN (sim, ainda menciono esse sistema supostamente “dinossáurico” de comunicação), etc. E por mais que essas ideias possam ser absurdas, ridículas ou mesmo reconhecíveis, muitos não se privam do direito de guardá-las para si mesmos, inclusive esse que vos fala. Mas por outro lado, talvez esse seja um aspecto histórico inevitável que devemos usufruir com bom senso e certa astúcia. Nesse sentido, convoco todos aqueles que se incomodam com as mais estapafúrdias ideias que são propagadas sem o mínimo de critério pela internet a se mobilizarem consigo mesmos e começarem a protestar na mesma moeda, ou seja, escrevendo em resposta a esses ignaros. Enfim, não era sobre isso que gostaria de escrever nesse post. Deixei-me levar um pouco pela melodia psicodélica do Pink Floyd aqui e acabei fazendo uma introdução maior que o necessário, o que foi de qualquer maneira foi proveitoso, pois esse post trata justamente desse momento histórico que vivemos em que boa parte das pessoas adora se deixar levar por modismos convenientes, os quais acabam se tornando mais acessíveis graças a essa ferramenta de dois gumes chamada internet. Em textos anteriores, o poder de uma ideia e insônia, tentei me dedicar a expor algumas considerações que tenho acerca de como uma ideia pode possuir um poder construtivo e destrutivo. No post a seguir, composto por um texto que já havia escrito, retomo essas concepções sob um prisma mais específico, a saber, a cultura de informação desenvolvida pela sociedade contemporânea. Em meio às inúmeras discussões sobre comissões de direitos humanos, corrupção, alienação cultural, falsos engajamentos políticos, e redes sociais, tento observar, sob um prisma não muito alvissareiro, o modo como essa nova cultura de informação gera uma sociedade uniforme e congruente com os propósitos de uma indústria da cultura. Enfim, o texto é curto, mas terá sequência. Leiam, comentem, me xinguem, certamente não vou dar a mínima...

Abraços















Em sua teoria da educação, exposta naquela que pode ser considerada uma de suas maiores obras, A República, Platão nos diz claramente que "aqueles que contam histórias (fazendo alusão aos rapsodos) devem ser vigiados, pois deixam na criança um traço mais duradouro do que os que cuidam do corpo". Não pude deixar de notar o quanto essa análise de Platão está presente naquilo que pretendo chamar aqui de "cultura da informação". Essa cultura da informação deve ser entendida para além do simples conceito veiculado de que a informação nos é dada pelos mecanismos e meios de comunicação estabelecidos pela sociedade contemporânea. A informação deve ser entendida, assim, como toda e qualquer transmissão de ideias feita pelo ser humano. Desde criança somos treinados a escutar antes mesmo de processar as informações que nos são passadas. O próprio fato de recebermos um nome para atendermos ao chamado desse nos indica esse treinamento, que não acredito ser instintivo, para a escuta. Como o próprio Platão diz, é na infância que encontramos o homem em sua fase mais maleável e suscetível de formação. Posto isso, não se pode negar que desde a mais tenra infância somos treinados a receber informações de todo o tipo. Por outro lado, em momento algum somos treinados, mesmo que superficialmente, para analisar e processar, de modo crítico, todas as informações recebidas. Ao recebermos a informação, transmitida como uma ordem por nossos pais ou responsável, de que não se deve colocar o dedo na tomada, não nos é permitido refletir sobre tal informação, cabendo apenas acatá-la com a respectiva e singela explicação de que tomaria um choque e me machucaria. Não quero com isso sugerir que os filhos se insurjam contra os pais e muito menos dizer que a criança teria plena e total capacidade de discernir o que é colocar o dedo na tomada, entre outras coisas. O que pretendo é ressaltar que esse treinamento para a escuta e recebimento de informação já se inicia na infância, momento de maior maleabilidade na formação de nossa personalidade, e encontra seu ápice já na fase adulta. As ideias incutidas desse modo na mente de uma criança podem se tornar, na fase adulta, justamente as convicções opostas àquelas que supostamente deveria possuir. É assim que todo tipo de ideologias, crenças, superstições, pré-conceitos, etc., são impostos às pessoas, as quais não têm outra saída, devido ao treinamento que lhes foi dado desde a infância, a não ser repetir tais opiniões na vida adulta. É a partir disso que chegamos ao ponto principal de nossa breve análise: devido a esse treinamento para a escuta acrítica das informações, a sociedade contemporânea tende aceitar com grande facilidade as informações que lhes são jogadas goela abaixo, seja pelos meios de comunicação e sua propaganda deturpada, seja pelas ideias de um líder religioso, seja por amigo, etc. Se enquanto crianças somos treinados para ser uma esponja, enquanto adultos somos a configuração perfeita dessa esponja em atividade. Mas essa facilidade com que se manifesta a aceitação das ideias transmitidas por essa cultura de informação não é acidental ao indivíduo que a recebe. Como afirmamos, o treinamento para a escuta acrítica se inicia na infância, é reafirmado e consolidado na adolescência, encontrando no indivíduo já formado sua efetivação completa. Esse fenômeno da aceitação da informação recebida sem o mínimo critério de avaliação está presente inclusive no meio acadêmico. Por um lado se percebe um comodismo intelectual nos pesquisadores em diversas áreas do mundo acadêmico, os quais preferem se ancorar literalmente nas ideias já consagradas por grandes autores e simplesmente se relegam à função de nada mais fazer do que reproduzir aquele pensamento com a desculpa escarrada de que estão propondo uma nova leitura ou uma explicação mais adequada do autor defendido. Por outro lado, as próprias instituições rejeitam de maneira imediata qualquer tipo de manifestação de pensamento livre que se considere crítico. Com isso, nos deparamos com um incomodante paradoxo: como nos livrar desse estado de esponja consolidado se ao mesmo tempo nos colocamos como essa esponja receptora e acrítica? Se há algum papel para os filósofos da contemporaneidade, sem eximir dessa função outras áreas, esse papel seria o de promover a libertação desse estado de esponja acrítico e possibilitar, através de uma guerra ferrenha contra a cultura de informação, o acesso às próprias capacidades críticas do ser humano, o qual deverá passar desse estado acrítico para um crítico. Tal processo não é simples, nem pretendo nesse breve texto apontar o modo como isso deve ser feito. Ao expor o problema e colocar a pergunta: “qual a saída desse estado de esponja acrítico?”, acreditamos torná-la, uma vez que, reconhecido o problema, não haverá como escapar do incomodo causado por ele.



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